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Na Flip 2010, em Paraty, os historiadores da cultura Peter Burke e Robert Darnton debateram o futuro do livro em papel e do livro digital. Burke disse que os livros que sobreviverem serão mais curtos, fáceis para a leitura em máquinas como o Kindle. Os leitores do futuro poderão saltar entre tópicos de um texto assim como fazemos com as manchetes e fotos de um jornal. Ele aponta que tem o medo das gerações futuras perderem a habilidade de ler devagar. A tendência é a publicação de livros mais curtos e sem muita profundidade nos e-books.

Com minhas referências atuais concordo que temos a tendência de textos mais curtos nos ebooks. Mas ao observar o que temos de concreto hoje diria que a leitura passa a ser primordialmente de textos curtos devido à educação e a dinamicidade da sociedade, nos mais diversos países.

Vejamos o caso dos jornais impressos que vem sofrendo redução de tamanho e conteúdo. E muitos, como os cariocas “Meia Hora” e “Expresso da Informação”, nem tem como público alvo o leitor da era digital, mas a população de baixa renda e que não teve educação adequada. Não é uma situação local, mas mundial, a busca por textos mais curtos na área jornalística, o que abre caminho para a redução de leitura de textos densos em livros.

Mas não devemos confundir a leitura de textos mais curtos com ler menos. O ser humano se depara cada vez mais com uma necessidade – ou presença – de informação, de ler mais, de escutar e ver mais, porém, muito de pouco. A dinâmica dos dias de hoje pede isto e não é algo necessariamente ruim, já que poderá permitir aqueles com menor tendência a leitura do ato de ler.

Como abordado no segundo parágrafo à leitura de textos curtos, que tem influencia dos dispositivos eletrônicos, estaria mais associada à questão educacional e a dinâmica da sociedade.  O equipamento eletrônico em si não é o problema, principalmente se observarmos estudos relativos a telas que permitam a leitura nestes dispositivos por um tempo maior sem cansar a visão.

Tudo o que foi visto até então é relacionado ao que tínhamos até aproximadamente um ano atrás. Mas parece que estamos entrando em mais uma fase (já perdi as contas) deste processo com a inserção dos tablets no mercado. Nos e-readers tínhamos um equipamento dedicado a leitura, com poucas funções a mais, mas agora temos dispositivos que entregam ao utilizador um número extenso de recursos.

Mas já não tínhamos isto com os computadores, notebooks, netbooks e smartfones? Sim, já tínhamos. Porém, nos primeiros, a dificuldade de locomoção ou acomodação para a leitura em variadas situações complica o uso para a finalidade de “leitura” de conteúdo em qualquer lugar, e no último, o reduzido tamanho de tela é um fator negativo. Mas os tablets chegaram com tamanho de tela razoável (de 7 a 9 polegadas atualmente), beneficiados por uma pré-experiência (ou expectativa) com os e-readers e a com um número maior de recursos.

O aumento de recursos no dispositivo é que tende a realmente fazer com que a forma de leitura mude devido à tecnologia. Neste momento poderia afirmar que todas as mudanças na forma de apresentar ou ler um conteúdo (que alguns observam como problemas) tem influencia da tecnologia, mas também (e em grau maior) de outros aspectos. Mas os tablets estão fazendo com que a tecnologia tenha uma interferência maior no conteúdo e pode ser que (não é possível afirmar) acelere o padrão do texto curto.

O que ocorre é que nesta fase experimental do uso do tablet para a leitura (o pioneiro IPAD tem apenas um ano de existência), as possibilidades permitidas pelos aparelhos estão fazendo com que a indústria de livros e jornalística testem inovações, utilizem outros recursos que não apenas o texto.

O maior exemplo até o momento é da versão de Alice no país das maravilhas para IPAD, onde é possível interagir com o “cenário” que dá suporte ao texto. Nas palavras de Lourdes Magalhães, no site da primavera editorial, “quem já teve a oportunidade de ler um livro no iPad vai perceber a diferença e quem teve a oportunidade de ler a versão digital de “Alice no País das Maravilhas” para crianças vai concordar que todos os meios a favor da literatura de qualidade são válidos. Os leitores vão continuar associando o livro a bons momentos, acrescentando a eles as opções de interagir com o texto, com imagens… Em “Alice”, os leitores vivem a emoção de fazer parte da história e do cenário. Um “dispositivo” de conhecimento concreto, palpável e que nos leva a vivenciar e criar uma história única, pessoal. Apesar de o conteúdo ter sido escrito por um autor, todo o cenário – embora tecnológico – continua a depender da imaginação do leitor. E a imaginação é muito estimulada entre os leitores contemporâneos.”

Mas as experiências não param por ai e tendem a mesclar tecnologias, como o anuncio da revista VEJA de que terá edição para tablets com visualização em 3D com o uso de óculos apropriados (que no futuro não serão mais necessários).

A questão é que os tablets permitem uma mobilidade de equipamento tecnológico associada a uma boa experiência de leitura nunca antes produzida. E estes tablets trazem as obras outros elementos que não sejam apenas palavras, influenciando o uso de textos mais curtos, mas não conteúdo reduzido, já que temos o uso de sons, movimentos de cenários, imagens, vídeos…

A leitura nunca foi a mesma! Com a imprensa e um maior volume de publicações passamos a ter textos mais curtos e uma maior quantidade de títulos disponíveis. O mesmo acontece com a tecnologia digital que traz mais uma redução de textos, mais títulos e uma experiência de interligação de tipos de leitura como texto, áudio, imagens e vídeos.

Isto é ruim? Muitos criticam, com se o livro da forma que conhecemos sempre tivesse existido. Pode até ser que seja ruim para a sociedade como está moldada atualmente, porém, inocente é que acredita que estas mudanças irão modificar apenas o hábito de ler.

A sociedade tende a mudar, gerando um cenário onde a leitura tradicional poderá não se a única forma exigida, ou até mesmo dispensável. Isto é ruim? Se observarmos a sociedade com os olhos voltados estritamente para o passado recente a resposta é sim! Mas se olharmos no passado as mudanças que já ocorreram na forma de produzir e ler conteúdos, e repensarmos o futuro adequado às novas necessidades informacionais do ser humano poderemos chegar a um ponto ideal.

A questão é não criticar as novas relações entre conteúdo e leitor apenas por que se viveu em uma experiência diferente, mas também não aceitar tudo que é novo apenas pelo fato de ser novo, já que por vivermos um momento de mudança muito do que temos vive num estado de testes, ou como é comum dizer na tecnologia digital, em fase beta.

Voltado a cita Loudes em seu texto no Primavera Digital:

“Embora os novos tempos causem um certo atordoamento – o mesmo de Alice – acredito que além de inevitável, a convivência com as novas tecnologias dos livros contemporâneos pode ser prazerosa. Entretanto, essa experiência será mais intensa à medida que houver coragem para tirar proveito do passado sem temer o novo. Estamos diante de uma aventura extraordinária, da qual podemos ser protagonistas!

Embora os novos tempos causem um certo atordoamento – o mesmo de Alice – acredito que além de inevitável, a convivência com as novas tecnologias dos livros contemporâneos pode ser prazerosa. Entretanto, essa experiência será mais intensa à medida que houver coragem para tirar proveito do passado sem temer o novo. Estamos diante de uma aventura extraordinária, da qual podemos ser protagonistas!”





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8 Respostas para “Mudanças na leitura, tecnologia digital e conteúdo”

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  5. ManuBezerra dezembro 8, 2010

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