Este texto seria publicado aqui no Bibliotecno no último dia 25/06/2012 (segunda feira) porém alguns problemas que deixaram o site fora do ar impediram, ainda bem. Um fato ocorreu no dia seguinte e resolvi mudar tudo! A temática é a mesma, porém, melhor exemplificada e até mesmo in memoriam…
O mundo vem mudando e rapidamente. Quando comecei a fazer a faculdade de biblioteconomia em 1999 via a área de uma forma, em 2003, quando me formei já percebia uma nova realidade e hoje o mundo não tem nada, ou quase nada, daquele de 1999 ou do de 2003. Sim, as pessoas e suas visões mudam, contudo, não foi só eu que mudou, mas a realidade! A tecnologia é muito responsável por isto.
As bibliotecas viram diversas ferramentas crescerem e invadirem seu espaço. Durante este período, o Google surgiu, abocanhou parte do mercado informacional e muitas bibliotecas não conseguiram ver seu espaço, não conseguiram perceber seu diferencial. Moreno Barros em algum de seus canais de comunicação (vejam só… hoje a informação é tanta, de tantos lados que nem sempre nos lembramos de onde veio) diz que a biblioteca pública como é hoje em dia não faz sentido, pois apenas o custo de transporte, que em média custa R$ 12,00 (ida e volta para retirar e devolver um livro) já permite comprar um livro através do se webstores, sem sair de casa… Isto quando esta gasto leva a descoberta de que a biblioteca não tem o livro.
São muitos os aspectos que devem melhorar em uma biblioteca pública ou nacional. Estrutura, profissionais que efetivamente ajudem ao usuário na recuperação da informação (serviço de referência de verdade), entregar ao usuário o que ele deseja, capturar a realidade de um usuário/comunidade e compartilhar com o mundo. Irei focar neste último item!
Mas o que ocorreu que mudou a história deste tópico? O mito, a figura, o famoso (sim, ele gostaria se ser chamado assim) se foi. Morreu esta semana o pesquisador número 1 da Biblioteca Nacional, Heber Trinta Filho. Ao mesmo tempo tinha ideias teoricamente absurdas, suas teimosias e até grosserias, estamos falando de alguém que durante anos reteu conhecimento, internalizou fatos e introduziu a eles a sua realidade. O pesquisador que tinha plena noção das características anteriormente mencionadas (e muitas vezes utilizava elas para formar o mit0) pesquisou sobre futebol, sobre os antecedentes do golpe militar e o militarismo, sabia histórias pouco divulgadas sobre a Academia Brasileira de Letras, cultura em geral e até mesmo tinha noção do tamanho da frota das empresas de ônibus do Rio de Janeiro, pasmem…
Trinta pesquisava, principalmente sobre futebol, e fazia suas anotações em diversos cadernos que espalhava em sua humilde moradia no centro do Rio, ou no berço cultural como gostava de dizer e afirmar que ali era o melhor lugar do mundo, pois há cultura por toda parte. Com a morte restaram os cadernos (que sinceramente espero que sejam doados e guardados pela Biblioteca Nacional) com muitos dados extraídos, em grande parte resultados de futebol extraídos de diversos jornais. Dizem até que Trinta torcia para o Vasco e que foi a pesquisa, a busca pelo conhecimento, que o fez mudar e torcer pelo Santos, segundo ele o melhor time de futebol do mundo.
Mas só os cadernos preservados já são um tesouro? Sim, principalmente para a história da BN, porém, em termos de conteúdo, muitas das anotações estavam desorganizadas, segundo um pesquisador da biblioteca ao qual o Trinta mostrou suas anotações, e não fazem sentido. Não fazem sentido hoje, pois até semana passada estes cadernos somados ao próprio pesquisador formavam a história de diversos assuntos segundo a visão de Trinta… Ou seja, parte da informação se perdeu, foi-se com Heber.
As bibliotecas devem oferecer informação, porém, informação tradicional o próprio Google já consegue oferecer, contudo, toda biblioteca pública tem seu maluco beleza pesquisador, com muito conhecimento retido de livros e periódicos somados as suas vivências, a sua versão dos fatos. Ao busca apenas oferecer informação a biblioteca pública não costuma ter ações para reter informação, internalizar (sim, estou roubando parte da teoria da gestão do conhecimento) a informação única que só aquele pesquisador poderia oferecer. Fora que muitos outros pesquisadores sonham em publicar o que pesquisaram por anos, mas não conseguem.
Para se ter uma ideia do que se perde, há una 2 anos atrás um senhor por algum tempo pesquisou na BN periódicos sobre estradas de ferro do Brasil que nunca vi ser de interesse de outros pesquisadores. Conversando com este usuário soube que ele não só pesquisava, mas como lazer se deslocava a locais aonde existem estações abandonadas, parcialmente destruídas ou localizações de estações que não existem mais e fotografava os locais, conversava com moradores. Me confidenciou que em uma destas pesquisas in loco foi a cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e ao fotografar a antiga plataforma foi abordado por traficantes que queriam saber o motivo da fotografia, fato que extrapola uma pesquisa sobre trens, mas demonstra a violência deixada em alguns pontos por onde no passado as locomotivas passavam. Este usuário sumiu (e espero que esteja vivo) e com ele estão informações que fariam felizes muitos usuários de um fórum sobre estradas de ferro que busquei na web. Na internet não existem estas informações, nos documentos da BN temos alguma coisa, mas a visão geral (e as fotos) está com o usuário.
As bibliotecas públicas devem buscar uma forma de reter este conteúdo. Ajudar o pesquisador a publica um livro é uma saída mais tradicional, porém, imagine um serviço de blogs mantidos por bibliotecas onde o bibliotecário identifique os usuários com boas histórias, com suas versões dos fatos e ajude estes a criarem seu espaço na web (estamos falando de muitos usuários já idosos, onde o computador não é nada familiar). A vantagem de ter o serviço de blogs mantido por bibliotecas cooperativamente? Preservação do conteúdo, pois alguns pesquisadores até tem seus blogs que em caso de morte serão desativados, a possibilidade de criar a interação entre documentos nos sistemas gerenciadores de acervos e textos de usuários que utilizaram aquele conteúdo, entre outros.
Mas há um aspecto mais preocupante: a digitalização! O usuário acessa de casa, a biblioteca até sabe o que foi pesquisado, porém, não a ideia gerada pela experiencia do usuário, suas vivencias somadas ao conteúdo. As vezes o usuário pode saber de fatos que contradizem o publicado e digitalizado, mas a biblioteca nunca saberá e se este não compartilhar com o mundo a informação morrerá com ele. E mesmo que compartilhe na web, teremos uma informação perdida neste amplo universo que que poderá não ser preservada.
É preciso criar mecanismos que estimulem a publicação, o compartilhamento, o acesso da biblioteca a estas informações e sua disseminação. Assim, poderemos dizer que a biblioteca terá informação diferenciada e até fazer o Google, que ainda é o medo de alguns bibliotecários, apontar mais as bibliotecas em seus resultados. É preciso também estimular que estes usuários, em diversas bibliotecas país afora possam estar em rede, trocarem informações… imagine a loucura que seria! Mas esta loucura também deve ser buscada, registrada, disseminada. Alguns loucos se tornaram conhecidos e socialmente relevantes por suas ideias e suas memorias foram preservadas, contudo, muitos outros loucos morrem e levam a informação consigo e quem sabe, neste meio pode ter algo que mude o mundo.
Ah, caso tenha ficado interessado sobre nosso mito intelectual da BN, veja um pouco de sua história neste vídeo abaixo. Heber Trinta Filho também disseminou seu conhecimento e loucura em uma matéria da revista Piauí e em uma entrevista ao Programa do Jô, mas muito foi junto com ele.
E agora: quem me chamará de cibernético:?……………………..



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